Prólogo:

A pena deslizava. Alec respirou fundo. Sua mão tremia, mas a linha saiu perfeita. Exatamente como o original. Não era sua primeira alteração de registro, nunca a fizera em um documento tão antigo.
…dos Eternos criaram os homens através das chamas… deles vieram todos os povos, portadores da inteligência e da força, distintos no dom, mas não na origem.
Releu a cópia. Estava perfeita. Cada curva, cada mancha de tinta, idêntica. A folha foi arrancada de suas mãos.
— Não, não, não. Pelas Chamas Sagradas, está muito literal — o mestre apontou para duas palavras com a pena — Inteligência e Força. Preciso de poesia, não de inventário. Troque.
— Conhecimento… e poderes, talvez?
Encostou a pena na ponta do queixo.
— Não seja preguiçoso, vamos, construa a sentença, use o que já lhe ensinei. Alec fechou os olhos. As palavras começaram a aparecer — como se alguém as escrevesse em sua mente. Todas que já leu. Todas que memorizara sem querer. Inteligência. Intelecto. Estrutura. Lógos. Força. Potência. Emoção. Érgos.
Ao fundo, os dedos de Radish batiam na mesa. Toc. Toc. Toc. Cada batida acelerando. Como um grito abafado, disse:
— Érgos… e Lógos.
Segurando sua pena manchada e surrada, fez uns rabiscos e retomou sua escrita com um tom mais poético desta vez. Entregou o manuscrito ao seu mestre, que o segurava lado a lado. Comparando-os através de seus pequenos óculos redondos. Acenava em sinal de aprovação; não sorriu, nunca sorria.
Como em um estalo, o mestre se dirigiu até a escrivaninha, escolheu dentre as penas a sua favorita e escreveu. Dedos rápidos, calejados e extremamente habilidosos, a sentença agora estava completa. O mestre estendeu a folha, entregando-a a seu aprendiz. Seus dedos roçaram o pulso de Alec.
A lembrança irrompeu — indevida. Mãe. Bolos de maçã. O cheiro doce que nunca mais sentiu. Como gostaria de comê-los pela última vez. Um frio percorreu seu corpo, eriçando os pelos da nuca aos pés. Alec piscou. A imagem escapou — tão rápida quanto veio. Por que pensei nisso agora?
O mestre encarava a janela, seu semblante era vazio. A boca, uma linha fina. Alec nunca o vira assim. Tão... distante. Ao contrário dos outros mestres da Academia que fingiam cordialidade, ele não fingia nada. Exigente, seco, mas de uma precisão invejável. Seus olhos — que um dia foram azuis — agora esbranquiçados nunca deixavam escapar um erro.
— Uma mente bem treinada... — murmurou o mestre — … excede seus limites.
Observava seu aprendiz da escrivaninha, fitando-o, sem piscar. Pegou outro pedaço de papel e começou a escrever. As palavras dançavam no pergaminho amarelado. Ele sabia o que deveria escrever. Sabia o que não deveria. A diferença estava em três linhas. Apenas três. Alec precisou buscar uma razão em seu interior para continuar. Respirou fundo, tomando coragem. Depois do que passei, depois do que mamãe teve de fazer para que eu tivesse essa oportunidade.
Ao transcrever, uma dor pinçava sua nuca, mas o sentimento de orgulho por ser ele o escolhido se sobrepunha aos seus instintos, que o avisavam de algo estar errado.
— O que vamos fazer com o original?
Perguntou quase sussurrando, tentando disfarçar o anseio. Sabia que todo original deveria retornar aos arquivos superiores. Mas este não parecia ser o destino final de sua missão.
Ouviu-se um tilintar de chaves ao longe e passos apressados. Um mais leve e o outro mais espaçado. Vinham pelo corredor central, na direção da sala. Com destreza invejável, o mestre guardou a cópia na pasta dos originais, em ordem de catalogação exata. Retirou um dos muitos livros finos da estante, de capa marrom-avermelhada. Colocou o original entre suas páginas. Devolveu-o à parede recheada de livros. Mal se podia reconhecer qual fora a estante escolhida pela aparência idêntica que mantinham — quem dirá qual dos livros continha o manuscrito original.
Alec percorria o olhar pela parede de livros com a boca aberta, cenho franzido, indignado. Encontrou a expressão pesarosa, mas determinada, do mestre. Este recolhia os frascos de tinta, fazendo um gesto para que ele se apressasse a guardar suas coisas. Fechou a boca e, com agilidade, colocou todas as folhas em ordem alfabética o mais rápido que pôde.
A porta se abriu abruptamente e duas figuras altas e magras entraram na sala. Um deles vestia trajes nobres sob medida, com pedraria detalhada, no padrão de Phrones. Pele branca, cabelos loiros lisos até a altura dos ombros e olhos amarelos. Nobre de Phrones ou será Technes… ah, mestiço.— Pensou Alec, já examinando a outra figura que o acompanhava. Túnica longa que cobria dos braços até os pés, sobre seus ombros caía uma faixa arroxeada escura; um cordão preto amarrava a veste à cintura. Pele clara, olhos azuis e cabelos loiros em um rabo de cavalo longo. Um Guardador, e não qualquer um.
— Radish, vocês ainda estão aqui? Vamos, a sala está reservada para uso dos Alet hoje. Retirem suas coisas.
— Já estamos de saída, Guardador. Pedimos desculpas pelo atraso — pronunciou Radish empurrando Alec pelas costas e enfiando a maleta dos equipamentos em suas mãos.
Ao se dirigirem à porta, o nobre da família Alet adentrou no cômodo, percorrendo os dedos, pensativo, sobre os livros da estante. Mas, ao passarem pelo Guardador, este parou Radish, segurando-o pelo ombro. Alec viu a cena horrorizado e pensou freneticamente no absurdo do crime que cometeram. Mesmo ele sendo um aspirante a mestre, seu tutor não era da melhor das famílias nobres e não pagaria por sua vida. Pelas Chamas Sagradas! E se descobrirem? Quem vai pagar? E qual será a pena pra algo assim?
Seu rápido desespero mental foi quebrado sem palavras, apenas ao observar dois homens sustentando o olhar um no outro. E, com um aceno de cabeça firme, o Guardador os deixou passar, fechando a porta atrás de si. Mestre e aprendiz caminhavam pelo corredor a passos devagar. Se o local fosse outro, passariam por um senhor com dificuldades físicas, apoiado em seu neto. Mas esse não era qualquer lugar, e muito menos pessoas comuns. Será que o Guardador sabe? … Algumas coisas não servem para todas as mentes, afinal, como os mestres dizem.
Ele não olhou para trás.