Ergos |

Fragmentos
de uma Verdade Perdida

Amostra do Capítulo 1

Uma pena branca sobre uma superfície de pedra, iluminada em uma passagem escura.

Um

ANTES DE TUDO, TREVAS

Pernas latejando, tornozelos inchados, areia infiltrando-se em cada espaço descoberto de tecido. Lábios rachados e a pontada fria e ácida de um nó tenso que insistia em se espremer contra as costelas. Kael já estava acostumado com tudo isso; percebia cada vez menos nesses dias. Sentou-se na rocha fria, coberta de poeira vermelha, examinando o couro remendado do sapato com suas costuras pobres, que agora tinha um rasgo do tamanho de uma semente de tâmara na ponta do dedão. A ardência em seu ombro direito o fez vagar de volta ao meio-dia:

O estalo do chicote no ar foi o primeiro aviso.

— Mais força nessas pernas — vociferou Vest. — Já cansei de esperar.

Mais um estalo do chicote, seguido de um riso alto.

Os olhos de Kael encontraram os de Irzek, que, como ele, estava com cordas amarradas à cintura, cruzando o peito; na outra ponta, uma enorme rocha era deslocada no solo arenoso do deserto. Havia um terceiro garoto com eles, um de pouca musculatura, com os braços e as pernas tremendo a ponto de quase cederem. A camisa dele estava mais ensopada que de costume, colada ao corpo, ressaltando a necessidade gritante de terminarem o mais rápido possível.

No olhar que Kael recebeu de Irzek, estava a exata conversa que mantinham havia anos, sem precisar de palavras: ambos sabiam que aquele era o último aviso. Se não conseguissem mover a rocha até cruzarem o toco de madeira fincado na terra, o terceiro chicote seria direto na pele de um deles, e com certeza no elo mais frágil. Usando toda a força que lhes restava, os dois avançaram. Seus corpos tremiam e cada músculo parecia reclamar até quase se romper. Kael olhou para o alto, sentindo a queimação implacável do sol.

Não podia reclamar, não tinha tempo para isso: precisavam terminar o quanto antes. Num último esforço, inclinou o corpo o máximo que conseguiu para a frente. A rocha se moveu. Mas Kael escorregou. A areia veio ao encontro do rosto, e só então o ardor do chicote lhe cruzou o ombro.

— Seu verme, levante-se! Parem de corpo mole!

Antes que sentisse a segunda chicotada, a rocha avançou mais um pouco, passando da linha do toco de madeira. Kael olhou para Irzek, que desabara na areia, e por mais exausto que estivesse, esboçava um ar de triunfo, com o queixo erguido por ter sido ele a terminar primeiro. O alívio era mútuo.

Voltou o olhar à realidade, observando o dedo do pé aparecendo por entre o rasgo que ganhara naquela queda. Outro furo… Como vou consertar isso agora? Apertou os dedos doloridos. O rasgo aumentaria se não o fechasse logo. Terei que falar com Nert. Espero que Vest não esteja com ele. Inspirou fundo.

Naquele lugar, passar despercebido era uma arte que ele aprendera a dominar cedo, embora, ultimamente, a pressão baixa e constante, que aparecia antes mesmo que ele soubesse o que significava, tornasse cada vez mais difícil ignorar seus pensamentos dentro de si.

Havia um desconforto antigo em seus membros, tão antigo que ele já não sabia quando começara. O corpo, moldado por anos de ordens obedecidas por bem ou por mal, visava o dia tão esperado de sua liberdade, que ainda não chegara. No deserto de Kantheron, onde o dia incendiava o fôlego dos homens e a noite lhes roubava o calor sem aviso, Kael vivia na pele um lugar que não conhecia outra palavra a não ser servidão.

Observou os arredores lembrando-se de sua tarefa: sete tochas acesas, quatro caixas de suprimentos, camelos alimentados, cordas inspecionadas. Esqueci de algo? Algo que possam exigir depois? Nada. Tudo checado. Logo não terei mais que fazer o que eles fazem. Passou pelo túnel mal iluminado, com pontos de luz emitidos pelas tochas fixadas nas paredes rochosas alaranjadas, interligadas por enormes correntes velhas enegrecidas.

Chegou à gruta dos guardas; o ar sempre ficava mais pesado, o que era perceptível à medida que se aproximava. Kael parou na entrada, respirando fundo. A palavra nunca fora medo, mas algo que pressionava seu peito, que fazia os músculos enrijecerem, vindo de fora para dentro e, dependendo de quem estava por perto, se mostrava diferente. Lá dentro, lampiões e velas traziam uma luz bruxuleante. Ao centro, três guardas jogavam ossos de répteis sobre a mesa.

— Vamos! Preciso de um Koslo — Vest estava de pé, sacudindo as mãos. Seu grito fez as paredes tremerem. Segurava copos no formato de conchas de madeira, que, ao se encaixarem, formavam uma esfera. Ouvia-se o barulho familiar dos ossos sendo sacudidos no seu interior.

— Desista, Vest. Essa é do Nert, com certeza — sentado com os braços atrás da cabeça, dedos entrelaçados, olhando com um prazer mórbido para a desgraça de seu colega que perdia no jogo, estava Tyr, o guarda mais alto e observador.

— Já posso sentir! O cheiro do seu couro assando o dia inteiro amanhã! Haaa! — debruçado à mesa, Nert, com seu rosto deformado de cicatrizes. Kael sofreu uma pontada ao respirar — era comum senti-la quando Vest e Nert estavam por perto, principalmente Vest.

Kael espreitava na entrada, aguardando a pressão no ar diminuir, assim como os ânimos dos homens na gruta. Espero que Nert ganhe. Se perder, vai ficar de mau humor. E pode descontar em mim. Melhor esperar. Pelo menos enquanto estão assim. Então permaneceu ali, ainda em alerta. Caso ouvisse passos no túnel, entraria o mais rápido possível para não dar a impressão de estar bisbilhotando. Isso seria pior do que interromper o jogo. Experimentaria algo além do chicote, a privação de água ou de comida. Uma punição que sofrera no passado, ao tentar fugir, quando ainda era pequeno demais para entender a situação em que estava.

Agora, próximo de sua vigésima primavera, sabia que não importava o que fizesse; se escapasse, morreria no deserto: ou por desidratação, ou comido por um réptil gigante, ou, pior, encontrado e trazido de volta para ser feito de exemplo aos que desobedecessem às regras. Não queria nem imaginar o que Vest poderia fazer.

— Ahhh! Pelo ventre de Chtera! — Vest bateu os copos do jogo sobre a mesa com tanta força que os quebrou em pedacinhos. Kael sentiu o impacto como se o som tivesse viajado pelo ar e atingido seu peito; Vest estava furioso. Por instinto, Kael deu um passo para trás. Nert fez um ruído alto — gutural, deformado. Sua garganta perfurada em combate nunca se recuperara. A voz fora seguida por aquele som que parecia vir de dentro da terra. Kael apertou os punhos.

— Eu falei, Vest! Ainda bem que saí antes. Agora vai ter que cobrir o turno de Nert amanhã. — Tyr recebia uma moeda por debaixo da mesa das mãos de Nert, no momento em que Vest gritara enraivecido.

Kael, espiando do túnel, viu tudo: Nert tirando a moeda de dentro do bolso, Tyr fingindo espreguiçar-se ao apanhá-la, Nert sorrindo com o canto esquerdo da boca e Vest gritando sem perceber nada. Tyr não desviou o olhar de Vest, ficou assim, quieto, assistindo, até a explosão passar. Trapaça, como sempre. Tyr trapaceava todas as vezes que Nert jogava contra Vest. Um prazer que tanto ele como Nert tinham em observar a reação de fúria do companheiro.

Kael permaneceu com o rosto neutro; aprendera cedo que desprezo visível custava caro. Vendo que haviam acabado, entrou na gruta.

— Senhor Nert. Terminei as tarefas que me foram dadas hoje — estava com dificuldade de permanecer ereto, além das dores no corpo; o ar ainda tinha aquele peso que sentia na presença deles.

Nert se virou e olhou para ele, ainda com uma espécie de sorriso no rosto, que abruptamente se tornara desdém, dizendo: — Ah, é? Reporte.

Nos últimos anos, os mercenários vinham cobrando várias pequenas tarefas dos capturados de idade próxima à de Kael. Como um treinamento para soldados, era o que alegavam. Assim poderiam pedir mais ouro na venda, afirmando que viriam minimamente treinados.

— Sim, senhor. Escovei os camelos, alimentei-os e limpei o curral. Coloquei mais piche nas tochas, mantendo o fogo aceso. Contei todo o suprimento dos animais e a ração das mercadorias, toda a lenha e a água que possuímos. Temos o suficiente até o final do inverno. Realizei o treinamento com as cordas ao meio-dia, conforme orientado pelo capitão Kisk. O turno da vigia está com Ir agora. — Ir era o nome dado pelos mercenários a Irzek, um de seus dois amigos naquele lugar.

Kael parou por um momento, mas logo continuou. — Reporto que um dos recém-chegados, de olhos escuros e cabelo loiro, conversa demais com os outros, incentivando-os a não comerem nem beberem nada antes de cheirar. Foi severamente repreendido e as conversas pararam desde então. Esse é o fim do relatório, senhor.

— Aquele vermezinho não sabe o seu lugar. Vamos ter que ensiná-lo. — Vest cuspiu para o lado pegando seu chicote. Kael prendeu a respiração ao ver de relance um olhar faminto por algo que não era comida. Seu corpo tremeu de leve.

Aquele vermezinho não sabe o seu lugar. Vamos ter que ensiná-lo. — Vest cuspiu para o lado pegando seu chicote. Kael prendeu a respiração ao ver de relance um olhar faminto por algo que não era comida. Seu corpo tremeu de leve. Nos últimos anos, os mercenários vinham cobrando várias pequenas tarefas dos capturados de idade próxima à de Kael. Como um treinamento para soldados, era o que alegavam. Assim poderiam pedir mais ouro na venda, afirmando que viriam minimamente treinados.

continua...

A história continua...

Para entender mais, receba agora o Capítulo 1, com Kael.

Na semana seguinte chega o Capítulo 2, com Aedric: o mesmo mundo, visto por quem vive o oposto.

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